domingo, 29 de março de 2009


Nasce um dia fujão. Não foge de mim, seu macaco. Não finge que faltou. Vai, vem. Vem aqui. To com saudade da cor, não quero essa cara bege. Sai daí vem me dar um abraço, eu posso fingir que nada aconteceu. Já decretei luto quando você faiscou vida, mas não foi por mal. Vem, não faz isso hoje não. To com saudade do grito, não quero essa respiração presa. To com saudade do suor, para de ser assim tão frio. Vem que faz tempo que eu não sinto essa saudade. Sem sabotagens, bora. Vem me dar bom dia, antes que eu troque o vestido florido pela camisola preta. Vai, vem. Ainda dá tempo.

sábado, 28 de março de 2009


isso é uma lagarta mole e verde.
pra mim é uma cobrona escamada e amarela.
que diferença faz ?
lagartas são frágeis e cobras ágeis.
que diferença faz ?
eu posso esmagar uma lagarta, uma cobra pode me esmagar.
mas que diferença faz ?
uma ganha e outra perde.
eu não vejo diferença.
prefiro ver uma lagarta a ver uma cobra. assim me sinto maior e mais forte. assim me sinto homem, viril e másculo.
você é uma lagarta.
como ?
você é uma lagarta verde e mole.
eu preferiria ser uma cobrona escamada e amarela.
que diferença faz ?
assim me sentiria maior e mais forte. assim me sentiria homem, viril e másculo.
você é uma lagarta.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Tem gente que tem o dom do eco. Abre a boquinha, voam as letrinhas, bate na parede, rebate, volta, ecoa, coa, oa, a.. ah..

sábado, 28 de fevereiro de 2009


Eu tava do lado de fora e vi tudo. Ela chegou sozinha e meio perdida, no meio daquela gente toda. Com passinhos tímidos, encontrou um canto que a agradou e ali ficou. Não procurava ninguém, não olhava para ninguém, não queria se acabar de dançar. Fumava uns cigarros e bebia, mas não me pareceu bêbada também. Ela só queria ser o mais próximo dela que podia. Dançava com calma, cantava o que gostava, ria de vez em quando e fechava os olhos algumas vezes. Eu tenho certeza que ela nao queria ser notada. Mas não que estivesse fugindo, ou estivesse com medo. Me pareceu que ela só via silhuetas e se achava mais uma silhueta anônima entre tantas. E estava ali por ela, sem querer ver e achando que não estava sendo vista. Mas eu que tava do lado de fora e vi tudo, vi que ela foi muito vista, mas muito vista. Todo mundo percebeu que ela destoava e alguns se dedicaram a examiná-la. E viram o que eu vi. Ela era ela, ela era singela, tinha um 'que' amargurado num semblante feliz. Ela tinha luz, tinha verdade, tinha paixão contida. Ela era a mais linda, e eu que tava de fora me apaixonei. Alguns outros se apaixonaram também e foram até ela. Eu sabia que isso não ia dar certo. Assustaram ela, claro! Ela se assustou e foi embora, e eu fui junto.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009



Sr. Moço: - Bom dia, Amalinha!

Amalinha: - Bom dia Sr. Moço, mas acho que não está bom.

Sr. Moço: - Oh, minha pequena. O que a faz pensar assim ?

Amalinha: - Bem... É que eu morri um pedaço.

Sr. Moço: - Ahaha... E qual é esse seu pedaço que você considera ter morrido ?

Amalinha: - O pedaço de dentro.

Sr. Moço: - Ah, o pedaço de dentro... E a senhorita me diria o porque disso ?

Amalinha: - Eu diria. E digo. Sabe quando você fica muito feliz e sente bem aqui pulando ? Ou então quando você fica muito muito feliz e sente tudo assim formigando ? Ou então quando você fica muito triste e sente bem aqui encolher...

Sr. Moço: - Hmmmm... Acho que sei

Amalinha: - É, então. Nada aqui dentro funciona mais. Nada pula, nada formiga e nada encolhe. Tá tudo tão paradinho que parece morto. Ou então.. Será que o meu pedaço de dentro tá só dormindo ???

Sr. Moço: - Ahhh, agora sim. Certamente está dormindo, Amalinha... Sabe, esse pedacinho deve ter brincado muito nos últimos dias e acabou se cansando. Agora deve estar tirando uma soneca, e em breve voltará novinho em folha !

Amalinha: - Ah, Sr. Moço, deve ser isso... Talvez então eu me remexendo desse jeito esteja atrapalhando o sono do meu pedaço de dentro, e aí ele nunca vai acabar de descansar e nunca vai acordar !

Sr. Moço: - É.. Bem...

Amalinha: - Já sei ! Vou deitar e dormir, até a hora que o pedaço de dentro acordar, que vai acabar acordando o pedaço de fora. E se ele nunca mais quiser acordar... eu vou dormir pra sempre junto com ele. Bons dias pra você, Sr. Moço.

Sr. Moço: - Ah, Amalinha... Bons dias... e boas noites.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009


A árvore


Era uma vez ela. Era duas ou três vezes ela, não importa quantas vezes fosse, era sempre aquilo. Ansiosa a esperar. Esperava passar o que queria ver. E enquanto isso, via de tudo. Via elefantes, mas achava-os feios. Via a chuva, e acabava se molhando. Via o medo, e acabava por senti-lo. E via de tudo um pouco, menos do que queria. Mas ela ali ficava, não ousava se levantar. E foi ficando por ali, por todos os dias da sua vida. Sentada na terra, esperava passar o que queria ver. Ia passando o sol, ia passando a chuva, ia passando a lua e ia passando o sol. Ela permanecia sentada. Já quase não se movia mais, te tão compenetrada que ficava, esperando pra ver a vida passar. Já não levantava, pois podia levantar justamente no momento em que passaria o que ela esperava ver. Suas perninhas foram se enterrando cada vez mais na terra. Seu corpinho foi se tornando cada vez mais rijo. Desaprendeu a falar, já que só sabia esperar. Desaprendeu a andar, já que só sabia esperar pra ver. E assim ganhou folhas, caule e raízes e transformou-se numa bela árvore sem frutos. Viu cometas, viu amores, viu leões e viu cordeiros. Passou de tudo um pouco por ali, menos o que ela tanto esperou pra ver.

Fim.

sábado, 21 de fevereiro de 2009


Fecho a porta pra respirar. Só sou livre trancafiada. Ninguém entra e só eu saio, mas volto pra respirar. Só aqui eu sou, ou só, aqui eu sou. Sem nada e sem querer é aqui que eu me acho e é aqui que eu me vou. Mas é pra cá que fujo, pra respirar. Aqui não tem gente, não tem medo, não tem olho e não tem dente, não tem voz e não tem escuro. Aqui não tem ladrão, não tem barulho, não tem cheiro e não tem casca. Não tem frio e não tem calor, não tem fome e não tem facas. Aqui é meu abraço. Aqui eu sou anônima, e eu só sou no anonimato. Aqui sou eu e eu sou aqui.