sábado, 15 de agosto de 2009


a minha pequena se agarrou num fio de tempo e balança como num pêndulo; o que vejo hoje é sua silhueta transpassando o tempo que vem e o tempo que foi. seu balanço mole segue descompassado para frente e para trás, e se não me atino me bate o pêndulo no meio da testa. minha pequenininha, o pouco que te vejo brilha. me sufoca a garganta o te lembrar e me permito escorrer minha saudade ácida rumo ao chão. me conforta a saudade que invento, dos teus olhos que não vi. fico seca pelos olhos vivos e peço que continue balançando. sua não vida me encravou, mas sua vida me aniquila. me deixa crescer, que a pequena sou eu. você é um estardalhaço, estribilho e estilhaço.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

do livro As coisas, Arnaldo Antunes



Para passar de um lugar a outro existem as portas. Em geral são de madeira, mas às vezes não. De ferro em geral são os portões, mas às vezes de madeira. Portões de madeira chamam-se porteiras. Para sair de um lugar entrando em outro, como nos partos, as portas existem. As moscas pousam nelas. Os meios de transporte chegam ou vão embora. As portas são meios de transporte que ficam no mesmo lugar. Em geral brancas, como as paredes geralmente. Movem-se mas ficam no mesmo lugar, como o mar. As moscas pousam nelas. As paredes ficam paradas. Aranhas fazem teias nelas. Não nas portas, que têm dois lados; nas paredes, que só têm um lado, ou outro. Os olhos pousam nelas.

De Caroline Pires

Impávida

Atrás da minha íris tem alta tensão, fio desencapado, arame farpado, céu descoberto.


Atrás , na minha nuca, tem arrepio, tem desafio e nenhuma tatuagem pra mostrar caminho.

De frente, há quase nada e o sempre, é nunca.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Embola e embolora
de-te-ri-o-ra
de te rio rá-rá-rá

liquidez liquefaz solidez e solitude



em ti me dou e
em ti me dava
intimidou-se,
intimidada.

me te dava, te me dava.

deu-se e se deu.
ô se deu

cedeu.

eu e seu,
se eu sêsse.

que cesse,
quisesse.

quis-te-o
quis-to
quisto

Sê isto:
cisto torpor raiva.
Se isto se opor à raiva...
deleito rejeito

terça-feira, 14 de julho de 2009


minha noite é agitada, acho que é meu período de ebulição. não dá tempo de dormir, porque é muita coisa pra sonhar. são muitos quadradinhos brancos pra pintar. eu pisco menos e respiro mais. toda noite eu sou heroína e toda noite o dia parece pequeno demais pra mim. e eu fico ali, existindo de mentirinha. lutando pra não fechar os olhos, porque abrirão embaçados. cansados, sem força. da vida burra, do dia inteiro, inteiro burro pela frente. sem vontade de ver os bois de todo dia, de ver as pernas tortas. não quero ver que eu entro na manada-dos-sem. de noite é tão bonito, de dia é tão vulgar. a noite é permissão, o dia é castigo. de dia me faço vaca, de noite me deixo ser.

sábado, 11 de julho de 2009


pelejando, estribuchando.
as coisas vibram na forma mais estática, por incrível que possa parecer. essa é a minha corda, tanto salva qto enforca.
tudo tem uma alma, merece ser respeitado, por incabível que possa parecer. essa é a minha algema, tanto reprime qto debate.
as palavras têm asas e bocas, voam e sussurram todas ao mesmo tempo em volta da minha cabeça, sem cadência e propósito, por pretensioso que possa parecer. essa é a minha cor, tanto vibra quanto esmaece.
não se começa e não se termina, são linhas emboladas. por confuso que possa parecer.
não tenho propósito algum, além de calar o que há de vivo no ar capaz de envergar olhos, retorcer ouvidos, espiralar rostos e ir-se, ir-me, ir-te. tudo é vivo, tudo tem, tudo existe, tudo quer. isso me suga, me aflige, eu não entendo bem. tudo pulsa constantemente e de alguma forma se finge de morto, mas a mim eles nao enganam.