A faca entrou confiante naquela pele dura, resistente. E depois do primeiro furo, vem o rasgo deslizante da faca, cavando um sulco profundo na minha cara sorridente.
Escorria seu sumo na mesa, manchando a toalha, minhas mãos e minha mente. Me sentia criminosa agora. O medo do que eu posso ser capaz de fazer tomou conta de mim. Se nem eu sei meus limites, como posso estar segura comigo ? Me sentia louca e ofegante. Com a faca na mão, furando a laranja com aquele prazer sádico, que poderia eu então fazer num lapso de consciência? Talvez eu não fizesse distinção ao substituir a laranja por qualquer outro corpo. Talvez o significado do sumo da fruta se igualasse ao significado do sangue. Talvez eu seja uma psicopata. Talvez pro mundo vegetal eu seja uma alucinada psicótica.
Me perdoem, laranjas.
terça-feira, 19 de maio de 2015
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Que bom que você veio. Entra, fica a vontade. Pode se sentar. Aceita um suco, uma água? Tá mesmo calor esses dias...
(silêncio)
Como faz tempo...
Muito bem, talvez você queira ouvir minha história. Que bom. O fato é que, não sei se você soube, mas a Amalinha sumiu. Acho que ela fugiu. E desde então, meu filho.. Eu me resumo a isto. Um corpo magro, cansado, com olheiras e cabelos brancos. Sejam todos bem vindos.
Amalinha era quem me trazia a loucura, sonhos, palavras, devaneios vitais .. Amalinha era a vivacidade que havia em mim. Por algumas escolhas minhas, minha vida me foi suspensa. E essa menina levada acho que não entendeu bem os fatos, achou tudo chato, pulou o muro e ganhou o mundo. Longe de mim. Imagino alguns lugares onde possa ter se enfiado, sim... mas estão tão tão distantes, que já me sinto velha demais pra ir procurá-la. Meus ossos doem e o tempo é curto demais..
Fecha um pouco a cortina, por favor.. Esse sol vai queimar minhas plantinhas, coitadas. Assim está ótimo, obrigada.
Eu fiquei vazia. A vida, de tão cheia, tirou minha Amalinha de mim. Fiquei sem tempo pra ela. Não tenho tempo nem pra mim, quem dirá pra ela! Eu só não imaginava que a vida sem ela seria tão sem graça. Tão amarga. Teria feito diferente.. ou estou tentando começar a fazer. vai que ela volta...
Tive uma ideia. Me dá aqui sua mão, meu filho. Essa coluna que não me deixa mais levantar.. aaaaai, pronto. Brigada..
(abre a cortina, se debruça na janela)
A M A L I N H A, V O L T A , M I N H A F I L H A ! SE ALGUÉM VIU ESSA MENINA PELA RUA, MANDA ELA VOLTAR JA! A M A L I N H A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A
O vizinho do 601 detesta barulho, mas ele que me desculpe. Eu preciso tentar.
Tá me achando uma velha maluca, né.. já não esquento mais. nem comigo eu esquento.
Me deu um sono agora.. Você já tá de saída ? Então eu vou entrar e descansar.
Muito obrigada pela visita.
Olha! Quando estiver mais fresco você volta, que aí eu passo um cafezinho. Com esse calor não dá.
Chegou o elevador. Vai com Deus.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
e naquele momento, a pressão da rolha explodindo repentinamente na sua cara era eu.
era eu bomba, travestida de rolha, envolta na pressão, pronta pro ataque de explosão
e o chiado da espuma era eu, gargalhando baixinho; o chiado debochado antes da explosão.
e aquele silêncio constrangedor também era eu, observando calmamente sua reação.
eu estava no sorriso disfarçado de todos no salão.
eu era o espelho satisfeito de refletir sua cara de pastelão.
eu era tudo o que você, até então, disse não.
era eu bomba, travestida de rolha, envolta na pressão, pronta pro ataque de explosão
e o chiado da espuma era eu, gargalhando baixinho; o chiado debochado antes da explosão.
e aquele silêncio constrangedor também era eu, observando calmamente sua reação.
eu estava no sorriso disfarçado de todos no salão.
eu era o espelho satisfeito de refletir sua cara de pastelão.
eu era tudo o que você, até então, disse não.
a raiva que arrebenta nos dentes que a boca tranca
vem dos nervos a raiva que explode na pele
é a mordida do cavalo no teu saco
são todos os poros do seu corpo com um caco de vidro enterrado
é a raiva fina, e é a raiva trovoada
raiva viva, que explode no meio da sua cara
que queima dentro do seu cú
raiva sem escrúpulos,
raiva rasgada ao meio, em carne viva e pingando sangue
raiva depenada, despida de qualquer outra coisa
raiva mata mais que fogo
raiva é fogo que corre nas veias e explode no olho
não olha pra mim
que raiva cega
e mata.
vem dos nervos a raiva que explode na pele
é a mordida do cavalo no teu saco
são todos os poros do seu corpo com um caco de vidro enterrado
é a raiva fina, e é a raiva trovoada
raiva viva, que explode no meio da sua cara
que queima dentro do seu cú
raiva sem escrúpulos,
raiva rasgada ao meio, em carne viva e pingando sangue
raiva depenada, despida de qualquer outra coisa
raiva mata mais que fogo
raiva é fogo que corre nas veias e explode no olho
não olha pra mim
que raiva cega
e mata.
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