segunda-feira, 23 de novembro de 2009


Te preparei uma maçã, amor. Te cortei a maçãzinha em dois. Metade metade. Te abri a maçã, amor. Arranquei dela todos os carocinhos. Extraí o miolinho pra você, amor. Ela sangrou seu sangue doce. Meu docinho. Seu sumo lambeu sua face vermelha. Rubra como a sua, meu amorzinho. Te derramei mel sobre a maçã. Ganhou um brilho dourado e ficou mais docinha. Te cozinhei a maçã, amor. Cozinhei até ficar bem molinha. Quase se desfazendo. O sangue-sumo se entranhou de mel. Uma docinha-molinha-vermelhinha maçã. Pra você, meu amor. Pra você espetá-la com o garfo mais afiado. Cortá-la com a faca mais amolada. E rasgar sua pele fina. E mastigar sua carne numa boca cheia de dentes duros. Pra você engolir. Meu amor.

Se eu me entrasse num ralador de queijo eu me entrava feliz.
Me entrava vida pequena a dentro.
Me farelava.
Me partia.
Me lixa.
Me lixo.
Pouco me licho.
Se eu me empequenasse assim deixava de me ser massa, eu me seria farelo solto.
Me livro.
Me livre.
E se o deus existisse ele me pegava nos farelos e me assoprava feliz.
Me voou.
Me espalhou.
Me soltou
de mim
me livrou
de mim
me

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Eu te beijo pra me lamber
Eu te mordo pra me afiar
Eu te excito pra me viver
Eu te vivo pra mim
Eu te morto

Minhas inverdades
Invenções
e meia verdades
Na gaiola de metal

Bingou

Eu te amo a mim
Eu te me amo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009



quero uma parede de pregos, pregada de pregos, uma pregada de pregos pregados. Pra pendurar penduricalhos, fitas, folhas, tulipas.. Pra me pendurar. Pra caber o que é meu e o que eu roubar. Tudo furado, mas tudo ao meu alcance.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

eu ganho vida num segundo
perco em outro

sábado, 10 de outubro de 2009


um salpico de suplico, é o pingo preto que tem dentro do teu olho. é o cisco que te enxergo, por conta disso que te enxergo cisco. te desvendar rumou ao te querer e o te querer é o querer saber-te. o suplico vem de dentro e ganha a forma de pingo no olho, que é pra te exibir. exibir a súplica de querer a súplica do desvendar. desvendar as cores que você guardou pra dentro. te vejo pálido agora, porque já desvendei a súplica e já vislumbrei as cores. e te ver tão pálido me faz querer desvendar outra súplica que talvez eu não conheça. querer te desvendar ruma ao te querer e o te querer é o querer saber-te. o querer saber-te é que eu suplico desvendar, pra ganhar olhos pálidos por já ter visto as cores que eu separei pra dentro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


sentou-se como quem não sabe que senta, com olhar desmerecedor do que vê. a lâmpada de luz fria vacilava, accccende appppppppaga acnd apg acende e e e e ap ace aaapgaaaa, gemendo uma imitação frívola do silêncio. respirava forte e expirava quente. a boca entreaberta deixava a mostra o visco da saliva. curvou-se sobre a mesa, cravou os olhos no prato. arqueou o corpo e angulou os braços, como uma ave selvagem. apertou firme as duas mãos contra a espiga besuntada, levou-a a boca lustrando os lábios grossos, rasgando a pele do milho com os dentes. escorria a manteiga por entre os sulcos do milho, descendo pelos dedos. sua lingua percorreu as maos, se perdeu na espiga que fumegava e que escorria. ele usava a lingua e usava os dentes, usava as mãos e os olhos vidrados. todo um corpo para uma espiga. todo um bicho para uma caça. todo um bicho para ser a caça.